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This article was originally written in Portuguese and published in Tab UOL. The key points of this article are presented in English below, followed by the original version of the story. For a full English version of this article, please click on the “Translate page with Google” button on the upper right-hand side.


Key Points

  • This is a personal account on the experience of staying in the Amazon forest and sleeping there.
  • Sleeping in the Amazon provides a rare experience of complete natural darkness, increasingly uncommon in a world filled with artificial light.
  • Despite the darkness, the forest is full of loud, constant nighttime sounds from animals and insects, creating an intense and chaotic atmosphere.
  • The environment includes surprising and sometimes dangerous encounters with wildlife, such as venomous snakes and misleading animal sounds.
  • Camping in the forest involves physical challenges like cold nights, humidity, lack of facilities, and the need for protective measures like hammocks and nets.
  • The experience combines fear and awe, and navigating the forest safely depends on the knowledge of experienced local guides.

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Dormir na selva permite ver o escuro absoluto


Leão Serva termina de montar sua rede (com mosquiteiro) no acampamento próximo à área do Poção (no igarapé São Benedito), onde fica acampamento temporário dos Isolados de Mamoriá Grande. Imagem por Rogério Assis. Brasil.

Resumo

O jornalista Leão Serva relata que dormir na Amazônia permite ver o escuro absoluto, sem luz artificial, e notar como os olhos se adaptam e passam a “quase ver” no meio da noite.

 Ele diz que a floresta não tem silêncio: há sons intensos e simultâneos; em acampamento no Vale do Javari, Beto Marubo atribuiu a um sapo um barulho que parecia de onça.

 Serva narra encontros com jararacas e cita que líderes indígenas criticam soros antiofídicos líquidos que exigem refrigeração; ele descreve medo, frio noturno e a necessidade de guias.

Dormir na floresta é provavelmente uma das experiências mais marcantes que se pode ter hoje no planeta. Antes de tudo porque é uma raríssima oportunidade de ver o escuro, o escuro absoluto, natural, sem as luzes das cidades ou mesmo seu reflexo no horizonte. Certamente essa é sempre a maior das emoções que sinto e levo na viagem de volta.

Quando se vê as fotos da Terra por satélite, o que salta aos olhos é que os espaços escuros, sem abastecimento permanente de luz artificial, estão desaparecendo. Mas ali, na floresta amazônica, ainda existe escuridão. Quando não há lua, os olhos mal se acostumam, não conseguem ver realmente nada. Quando a lua brilha sobre as árvores, os fios de luz cruzam o dossel e chegam de fininho até o chão. No início você acha que não vai se adaptar, mas se acorda no meio da noite descobre que os olhos conseguem captar muitas imagens. E isso é surpreendente: você dorme quase-cego e acorda, no meio da noite, quase-vendo.

Se existe escuro absoluto, o mesmo não acontece com o silêncio: a floresta tem muitos barulhos, intensos, altos, distantes, próximos, todos ao mesmo tempo. Parecem pássaros, parecem feras, insetos. Uma sinfonia caótica e desarmônica. A floresta tem muito mais sons à noite do que a rua calma de uma cidade. É como se um outro mundo acordasse ao fim do dia para viver intensamente a noite.

Esses barulhos de todo tipo são desconhecidos para quem não está acostumado. Lembro de uma vez em que estávamos em um acampamento improvisado, com o time de Sebastião Salgado, na Terra Indígena Vale do Javari. Íamos para uma aldeia Marubo quando choveu muito, diversas árvores caíram sobre o rio e cortá-las para abrir caminho para as canoas tomou muito mais tempo do que tínhamos. A noite chegou e tivemos que entrar no mato e montar um acampamento. Por sorte, estávamos com guias habilidosos que rapidamente conseguiram estacas para nossas redes e pudemos esticar a lona de cobertura antes que caísse o maior dos torós.

Nessa noite, acordei com um barulho que me parecia o de uma fera urrando perto das redes, uma onça, pensei. Nosso companheiro, o jovem líder Beto Marubo, riu dos meus temores: "É só um sapo"… Pois onde já se viu sapo se fingir de onça para assustar um Leão?

No mesmo acampamento, quando achamos o lugar e começamos a limpar o chão onde íamos instalar as redes, pus minha mochila sobre um tronco caído. Quando a tirei, de baixo zarpou uma jararaca em direção ao mato onde sumiu. Foi minha segunda jararaca. Um ano antes, no mesmo Vale do Javari, em uma expedição à área dos Korubo, quando o terreno para o acampamento foi limpo, provavelmente ficou sem casa outra jararaca, que atravessou nosso caminho exatamente entre Sebastião Salgado e eu.

No sul do Amazonas tem muita jararaca. Os líderes indígenas reclamam que os soros oferecidos pela saúde pública brasileira são líquidos e têm que ser mantidos refrigerados; quando os locais andando na selva são picados, frequentemente estão longe do próximo posto de saúde com geladeira.

Acampar na floresta desperta um misto de sensações: alertas de medo e pleno êxtase diante da natureza intensa.

Posso estar completamente equivocado, mas me sinto muito seguro depois que me deito na rede e fecho por dentro o meu mosquiteiro. Deixo para fora os mosquitos que em alguns lugares podem causar malária. E ainda que não seja verdade, penso que aquela cápsula de tela talvez atrapalhe também um eventual ataque de onça, porque confunde a visão da presa.

Uma surpresa que o iniciante nunca mais esquece depois de uma noite na floresta é o frio: ninguém imagina que possa enregelar à noite, depois de um dia de calor equatorial. Mas é isso mesmo: a umidade esfria e sobe do chão no meio da noite. Tanto que é necessário dormir sobre e não sob o cobertor.

Um problema que é preciso considerar é a falta de banheiro. Mas isso vale para a noite e para o dia, e no escuro não há nada que uma lanterna não resolva. Com o tempo, depois de alguns anos, isso passou a ser um problema menor.

Em geral, depois que amarro a rede numa árvore ou numa forquilha, amarro também minha mochila ali no alto, para que ela não fique no chão. Assim ela pode ser vítima de insetos, mas não de cobra, que é provavelmente o bicho mais perigoso desses matos.

Uma vez deitado, no escuro absoluto e no silêncio barulhento, em geral tento ler um pouquinho para pegar no sono. Mas não dá tempo. Depois de um parágrafo ou dois, o sono é avassalador. E o sono nesse ambiente vem com sonhos de outro tipo, daqueles em que a gente pensa: "isso é um sonho de verdade", não esses sonhos do cotidiano.

Eu nunca dormi ou caminhei na Amazônia sozinho. Sempre tive por perto um guia, uma pessoa local que tem domínio do ambiente, desses que entram na floresta e rapidamente encontram as forquilhas necessárias para pendurar a rede, acham um lugar bom para montar acampamento. Não é possível imaginar um urbanoide sozinho no mato. Seria uma tragédia na certa. A floresta tem segredos, inclusive alguns notórios, como o fato de que mesmo pessoas experientes se perdem andando em círculos, porque o sol não é visível, as direções se confundem e as noções de distância e tempo se diluem. As pessoas andam, andam e de repente notam que voltaram ao ponto de partida, já então cansadas com fome e sede, prontas para o esgotamento!

Dormir na selva, para mim, é essa dualidade, entre medo e costume, entre o escuro absoluto e o barulho intenso; entre a sensação de vulnerabilidade do corpo e a de proteção de uma fina tela; entre o calor amazônico do sol de dia e o frio intenso que vem do chão à noite. E uma intuição forte de estar diante da epifania ou do fim.


*Leão Serva é jornalista, professor de ética jornalística (ESPM-SP) e pesquisador de pós-doutorado em antropologia na USP. Foi secretário de Redação da Folha e diretor de Jornalismo da TV Cultura.