Pulitzer Center Update Junho 22, 2026
Jovens brasileiros repensam as questões socioambientais que afetam suas comunidades
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Projetos apoiados pelo Fundo Semear, do Pulitzer Center, apostam no diálogo entre jornalismo, academia e experiências comunitárias, incentivando a transformação do conhecimento em instrumento de participação social
Conectados pelo protagonismo dos saberes locais, dois projetos apoiados pelo Fundo Semear conseguiram estimular moradores de comunidades do Brasil a compreender, nomear e intervir em questões socioambientais que afetam seus territórios. Ambos apostaram no diálogo entre jornalismo, academia e experiências comunitárias, incentivando a transformação do conhecimento em instrumento de participação social e oportunidade de intervenção em políticas públicas.
Um deles mobilizou jovens a reconhecer e narrar o racismo ambiental a partir do próprio cotidiano no conjunto de favelas da Maré (Rio de Janeiro). O outro promoveu o encontro entre universidade e comunidades tradicionais para discutir a sociobiodiversidade costeira e marinha em quatro Estados (Rio de Janeiro, Espírito Santo, Amapá e Maranhão). Ambos culminaram em exposições fotográficas sobre essas realidades.
Iniciativa do Programa de Educação do Pulitzer Center na América Latina – o Fundo Semear oferece microbolsas para apoiar projetos educativos inovadores visando ampliar olhares e debates sobre temas como justiça socioambiental, oceanos, florestas tropicais e mudanças climáticas.
“Buscamos inspirar novas perspectivas e ações locais, levando informação e discutindo importantes questões ambientais, baseadas em reportagens produzidas por bolsistas do Pulitzer. Através de uma educação crítica, essas atividades são sementes que podem gerar grandes transformações”, diz a gerente de programas do Pulitzer Center, Maria Rosa Darrigo.
Visibilidade e reconhecimento – Durante 16 encontros, que envolveram 25 jovens (de 14 a 20 anos) moradores da Maré e 25 alunos de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), o projeto “Maré é Mar” buscou dar visibilidade à experiência e aos saberes locais.
As atividades tiveram como tema principal o impacto do racismo ambiental no cotidiano da Maré, um dos maiores conjuntos de favelas do Brasil, com cerca de 136 mil moradores em 16 comunidades, segundo o Censo Maré. Consolidado a partir dos anos 1940, o território fica às margens da Baía de Guanabara, um dos cartões-postais do Rio, mas com grandes desafios ambientais, como poluição, descarte de esgoto e lixo.
Ao longo de 2025, o projeto integrou atividades de ensino, pesquisa e extensão por meio da participação do grupo Mídias, Redes e Jovens, da UFF, em parceria com o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), mobilizando 12 pesquisadores. Os jovens participaram de oficinas de linguagem jornalística, fotografia, roteiro e locução, além de rodas de conversa sobre letramento racial, midiático e racismo ambiental.
As atividades foram permeadas por reportagens apoiadas pelo Pulitzer Center que retratam comunidades próximas a regiões marítimas e enfrentam vários tipos de pressão, incluindo racismo ambiental. São elas: “Vila costeira de Sumatra luta para salvar meios de subsistência perdidos e terras que estão desaparecendo”, publicada em The Jakarta Post; “Metade dos recifes de coral está morta; um ‘super-recife’ em Maui oferece esperança”, no site Honolulu Civil Beat; e “Barcos de pesca europeus prejudicam o futuro da África Ocidental”, no site Follow the Money.
Como resultado do projeto, a exposição de fotografias “Maré é Mar”, realizada pelos próprios moradores em saídas a campo, ganhou espaço na Galeria de Arte Gaia, do Instituto de Arte e Comunicação Social, em novembro de 2025, e no Museu da Maré, aberta no dia 8 maio de 2026, aniversário do local e data em que se celebra o Dia.
Primeiro museu de favelas da América Latina, o equipamento abriga objetos da vida e da história dos moradores e do território, divididos em 12 setores ou tempos (como o da festa e o do cotidiano). Instalada na galeria de exposições temporárias, a mostra “Maré é Mar” será incorporada ao acervo do museu no fim da exibição. Na abertura, os jovens artistas, familiares e visitantes refizeram o percurso narrativo que fala tanto sobre o abandono e a resistência ao racismo ambiental como sobre a beleza que existe no território, apreendida pelo olhar dos moradores.
O projeto também produziu um documentário e quatro episódios de podcast, disponíveis em streaming (ouça aqui), além da cartilha “Racismo Ambiental”.
“Comunidades negras e periféricas sofrem mais com a falta de saneamento, sem coleta de lixo, com poluição e abandono do governo. Na Maré, isso é visível porque não temos a mesma estrutura de outros bairros, o que prejudica a saúde dos moradores. Depois de participar do projeto ‘Maré é Mar’, passei a enxergar minha realidade de outra forma e a entender o racismo ambiental. Tenho mais consciência, voz e vontade de lutar por melhorias da nossa comunidade”, conta a estudante Lara Gomes, de 17 anos, que participou das atividades.
Os bairros da região têm déficit de esgoto, de áreas verdes e de coleta de lixo, entre outras precariedades. Em um dos episódios do podcast, os jovens chegaram a tratar como as mudanças climáticas atingem de forma desigual diferentes áreas – por exemplo, o impacto das chuvas no comércio e para os trabalhadores do Morro do Timbau e Vila do João que sofrem em maior grau por causa do racismo ambiental.
Nascida no complexo, Carla Baiense, professora do Departamento de Comunicação Social da UFF e coordenadora do projeto, destaca que, apesar de o racismo ambiental estar no dia a dia dos moradores, eles têm pouco conhecimento sobre o assunto.
“Quando apresentamos o conceito em uma roda de discussão, foi curioso. No início, houve estranhamento dos jovens. Mas depois, eles se apropriaram e passaram a reconhecer o racismo ambiental. Era algo que já estava colocado no cotidiano, que eles percebiam, mas não nomeavam. A partir daí, começaram a identificá-lo efetivamente”, afirma Baiense.
Para facilitar o diálogo e incluir o olhar dos jovens na construção de todo o processo, a coordenação teve a contribuição de uma mobilizadora local. A estudante de Comunicação Raissa Araújo, de 22 anos, fez a “ponte” entre os jovens da Maré e os alunos da UFF.
“A proposta sempre incluiu uma escuta ativa. Para falar com esses jovens é preciso uma linguagem simplificada e usar formas lúdicas que conectem com o próprio dia a dia deles. Uma dessas maneiras foi a realização das oficinas que resultaram nas fotografias da exposição. Usamos a tecnologia a nosso favor. Eles também ficaram encantados com a oficina de podcast. Trabalhamos para sensibilizá-los e mobilizá-los”, complementa Araújo.
A luta pelos ecossistemas marinhos – Buscando proporcionar um diálogo de saberes horizontais entre acadêmicos e comunidades tradicionais sobre a sociobiodiversidade e as ameaças aos ecossistemas marinhos e costeiros, o projeto “Sociobiodiversidades ameaçadas” envolveu mais de 200 pessoas de vários Estados brasileiros.
Por meio de um curso de extensão realizado online, o projeto contou com a participação de 32 integrantes de comunidades tradicionais, incluindo pescadores artesanais, quilombolas, indígenas e ribeirinhos, além de representantes de 47 instituições – entre universidades estaduais e federais, institutos federais, associações comunitárias, organizações não-governamentais, órgãos públicos.
Foram cinco aulas ministradas no segundo semestre de 2025 (os vídeos estão disponíveis aqui), que incluíram na bibliografia três reportagens apoiadas pelo Pulitzer Center – “Defendendo os ancestrais contra as grandes petroleiras”, publicada pela Al Jazeera; “Conhecimento havaiano e ciência ocidental: uma receita para a recuperação dos recifes?”, do site Honolulu Civil Beat; e “Comunidades costeiras na linha de frente da crise climática”, do Daily Maverick.
“O engajamento das pessoas foi incrível, maior do que imaginávamos. A participação nas aulas era intensa. Achamos que o tema mobilizou os inscritos, especialmente a importância de contar com os saberes das comunidades tradicionais”, resume a professora do Departamento de Análise Geoambiental do Instituto de Geociências da UFF Raquel Giffoni, coordenadora da iniciativa.
Esses saberes perpassaram todas as aulas, especialmente na dedicada às mestras e mestres das comunidades costeiras e marinhas, em que o pescador Pedro Leite Costa, representante da Associação Quilombola de Degredo (ES), contou a luta da comunidade para ter seu território reconhecido.
“O processo foi enviado para Brasília [capital do Brasil onde está a sede do governo federal] em 2007 e só conseguimos o título em 2016. Depois de muita luta e de duas tentativas, nem esperávamos mais. Aí conseguimos o reconhecimento. Esse território ajuda muito. Se a gente não tivesse resistência, não estaríamos aqui”, relata Costa.
As aulas do curso abordaram ainda outros temas, como as dificuldades e ameaças à pesca artesanal – tanto por grandes empreendimentos como pela contaminação das águas –, o protagonismo das comunidades na preservação das áreas e a importância delas nas definições de zoneamento costeiro.
O avanço da indústria portuária de petróleo e gás também foi um dos pontos discutidos, especialmente pelos participantes do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. “Muitas vezes vemos o interesse de grandes empresas e até do Estado em certos territórios. [Com o curso…] Foi importante ver que as pessoas podem se articular, fazer pontes e ter diálogos”, diz o biólogo Victor Carvalho ao final das aulas.
O projeto também promoveu uma mesa-redonda presencial, no Rio de Janeiro, com 50 pessoas, focada nas ameaças aos ecossistemas marinhos e aos povos indígenas do Estado.
Uma roda de conversa realizada com pescadores, marisqueiras, fotógrafos e jornalistas ambientais, além de professores e alunos marcou a abertura da exposição fotográfica no Centro Cultural de Cidadania e Economia Criativa (Macquinho), em Niterói (RJ). Ela foi montada com fotos enviadas por participantes dos quatro Estados e algumas imagens cedidas por fotógrafos parceiros do Pulitzer Center.
Localizados em três regiões, esses Estados representam a diversidade dos biomas brasileiros: a Amazônia (Amapá), a Mata Atlântica (Rio de Janeiro e Espírito Santo) e uma área de transição (Maranhão) que contempla um trecho de Caatinga e Cerrado até a floresta amazônica.
“Entramos em contato com representantes do Amapá, Maranhão, Espírito Santo e Rio de Janeiro para mandarem fotos e depois fizemos a seleção. A participação foi grande”, lembra Giffoni, que já havia coordenado (entre 2024 e 2025), sob a liderança do professor Luiz Jardim Wanderley, a disciplina acadêmica “Amazônia, Amazônias – Histórias Contadas”. Promovida em parceria com o Pulitzer Center, a iniciativa levou a estudantes da UFF relatos da realidade de moradores de comunidades na Amazônia usando o cinema e documentários como conexão (leia mais aqui).